Eu estava,novamente,naquele lugar. Sujo,escuro e fedido. Mas eu já não possuia mais o medo,pois saberia que conseguiria resistir a mais uma visita.Um albergue não é um bom local para se adentrar,mas é um ótimo lugar para se aprender.
Na entrada,estava S.Loira,alta,magra e com um olhar duvidoso.Fitava-me com um ar conspirador e devorava-me com os seus olhos verdes. Sentei-me e ninguém apareceu. Ela começou a caminhar,analisando os meus modos. Fingia não se importar comigo, até que sentou-se ao meu lado:
" Você não tem frio ? ",ela disse.
- Não, eu adoro passar frio
" - Você fala isso pq não passa frio na rua "
- Verdade,nunca passei. Você já?
" - Oxi,muitas vezes... "
Foi assim que nos conhecemos. Contou-me sobre a sua vida de meretriz:
" se já leu Cristiana F? "
- Claro, mas não gostei muito.
" Eu também não gosto da minha vida... "
Morava no interior do nordeste,juntamente, com os seus pais camponeses.Era uma família grande,em que S. era a mais velha. Trabalhou duro para alimentar-se. Suas mãos demonstravam isso. Tentou um vida nova ao migrar para São Paulo. Começou a trabalhar como doméstica, mas, com o que recebia, não conseguia alimentar-se. Até que, um dia, o patrão decidiu comprá-la: aumentaria o seu salário,caso o seu corpo fosse fornecido a ele. Não resistiu à oferta e decidiu tentar. Com o tempo, a patroa descobriu o caso e a mandou embora. Sem emprego, partiu para a pura prostituição. Nessa vida,conheceu a droga e, com ela, o HIV. Perdeu a beleza, perdeu o corpo e está quase perdendo a vida.
Adquiriu depressão. No albergue,através do espelho,conversa com si.Não liga mais para a sua aparência. Designou-se como:
" eu sou o lixo do lixo,pq aqui ninguém gosta de ninguém não. Na rua, é todo mundo na sua. Acho que sou excluída dessa vida"
Nesse momento, tive dúvidas do que é a sua opinião e o que é a depressão. Realmente,o morador de rua é um lixo humano. Nós não nos importamos com a sua vontade e com a sua opinião. O erro está ai: não percebemos que,nesse jogo, tomos somos perdedores. Ao menos, tenho algo em comum com S : decidimos desabafar...
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