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domingo, 11 de setembro de 2011

Uma saída


 De Anderson Fernandes: 


Todos os dias são a mesma coisa
Você atravessa a porta sem fazer barulho
Fingindo que chegou há horas antes
E eu fingindo que durmo e que acreditarei em suas mentiras


Eu me anulo a troco de alguma coisa que eu não sei o que
Talvez o medo de me ver sozinha e carente
Pois se é ruim com você, imagine então sem


Mas meus ossos pesam, meu corpo inteiro dói
Sinto que não vou conseguir vencer a cama.
E eu sei que a culpa não é sua
Embora isso não signifique que eu esteja assumindo algo


Nós dois somos responsáveis pelas coisas que fazemos
E pelas coisas que deixamos que façam conosco
Somos, portanto, carrascos e mártires da nossa liberdade
Pois estamos fadados a sermos eternamente livres


Esta cama sabe disto e conta com meu libre arbítrio
Para me deixar acomodada e encostada nela.
Estou tão absorta neste frenesi que nem notei sua saída
Fingi que não te vi chegar e, de fato, não te vi sair.


Praticamente uma fábula. Ironica e controversa.
Que traz como moral da história uma grande lição
A de que livres, nem sempre sabemos tomar nossos caminhos.
E tudo que eu queria hoje é alguém pra me guiar

sábado, 10 de setembro de 2011




Angustiada. Pela terceira vez consecutiva estava acordando assim. Dessa vez não era pelos clientes, nem pela a data de uma tribuna que se aproximava.

Revirou-se na cama tentando se enganar.  Pensava em sua agenda, em seu trabalho e na manhã que estava começando. Mas no fundo, surgia aquela voz: tudo está ruindo.

Logo após, veio em mente a imagem que criou: uma casa, feita de palitos de picolés, colados delicadamente. Ela sempre foi péssima no artesanato e sabia que essa construção só existia por conta dele. Ele era o motivo de tudo...

Para sua infelicidade, essa casa estava abalada. A chuva e o vento fizeram com que alguns palitos se descolassem e caíssem. Ela, em um desespero mórbido, tentava recolocá-los no lugar. Mas a casa os rejeitavam, como um organismo que luta contra um antígeno.

Claro que ela estava triste. Na vida, aprendeu como vencer profissionalmente. E agora? Quem a ensinaria como vencer no amor?

Era por isso que a casa estava ruindo. Prendeu-se a um ideal capitalista e se esqueceu de que era um ser social. Deveria ter prestado mais atenção quando aprendeu isso na graduação.

Recusou perdê-lo e decidiu agir: levantou e caminhou até o sofá onde ele dormia.  Vagarosamente, o acordou com uma voz angelical. Olhou em seus olhos e começou a chorar.

Naquela manhã, ela conseguiu abrir o seu coração, mesmo com a fechadura enferrujada pelas atitudes do passado. Fez o que pode...

Hoje ela espera colher o fruto. Ainda dorme sozinha, apesar de não desejar isso. Deitada, como de costume, olha para o lado, admira o retrato dos dois juntos e diz: boa noite, meu amor.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011




Esse trem permanecerá parado por conta de uma falha no sistema. Normalizaremos em instantes...

Ele não estava nem aí para a questão do tempo. 

Para onde ia, não existia regras, ou alguém para ditar o ritmo da música.
Para alguns, lá só existia o prazer; puro gozo, desejo obsecados de dois corpos que se encontram.
Para ele, não muito. Já estava cansando de sua jaqueta surrada e sua calça da Calvin Klein.

O que ele mais precisava agora era  de um cliente.
Sim, suas roupas, suas necessidades e sua felicidade pediam isso.

Mas o seu  corpo voltava, como se estivesse paralisado perante a morte.
Mesmo assim, era isso que aconteceria naquela noite. Estava partindo para a guerra carnal sem um grande aliado: o desejo.

Tentando não pensar, olhou ao redor. 
Ao seu lado estava um rapaz, quase com sua idade, lendo algo que pouco entendeu. Talvez jamais entenderia, pois os recursos foram escassos. Estava ali por um mix de carências, tanto ecônomicas, quanto afetivas e   
educacionais.


Vê-lo remeteu ao pensamento de que poderia ter se esforçado mais e ter traçado um outro perfil de vida.
Poderia? Ou ele era produto do meio, em que a falta de oportunidade o  fez assim?
Ele estava sem respostas.

A única coisa que sabia era que o seu destino seria esse: ao final da noite, teria usado e sido usado em troca de dinheiro.
Prazer? Claro que possuía. 
Não era um santo e estava alí por algumas vantagens. 
E, como tudo na vida, havia um outro lado.

O seu maior problema era o enfrentamento de ter muitos em sua cama, mas nenhum ao seu lado.
Beberia para esquecer? Aceitaria a realidade social?

Nesse momento ele escuta: o problema foi resolvido. Desculpem o transtorno. Próxima estação...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011



Era cedo e o sol ainda não mostrava sua face.
Cama, banho, terno, café e  rodízio. Chegaria mais cedo e dormiria no carro até o horário certo. 
Parou: mas qual horário? A da ida, o da vinda, o do encontro, ou o de apertar o replay desse ciclo? 
Não pensou, pois não era preciso.
O automático já estava ativo e ele já estava engolindo a segunda fatia do seu pão. 

Já com o carro ligado, olhou no retrovisor sua camisa pendurada para não amassar.
Era sexta e sentia-se aliviado por isso. 
Sem razão, a noite acabaria em uma mesa de bar. Felicidade plástica, mas era o que ele desejava.

Era cedo,mas já pensava em poder sair dali, de tudo e de si. Para que? 
Não pensava, mas gostaria. Uma balada, talvez. A noite pode perdurar mais em uma pista de dança. 
Afinal, queria aproveitar todos os prazeres que a vida poderia oferecer

Mas para que? Não pensava, mas queria.
O automotico não pede esses tipos de questionamentos.
Para ele, era somente ligá-lo e pronto: tudo resolvido. 

Já na pista de dança, resolveu brindar:
1 copo: um brinde a minha vida 
2 copos: um brinde a quem eu sou 
3 copos: um brinde as minhas conquistas 
4 copos: um brinde ao meu condicionamento

Não lembra se brindou pela quinta vez, se beijou alguém, se transou com um desconhecido, ou como chegou em casa e tirou a roupa. Para ele, isso também acontecida automaticamente. 

Cambio e desligo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Erros !

Por mais que sejamos competentes e queiramos acertar sempre, errar é uma característica de quem está no jogo.Muita gente tem a ilusão de querer sempre acertar.Mas isso é impossível.
Veja os discos dos Beatles.Sou fã deles, mas tenho de reconhecer que algumas músicas são sofríveis.Nem eles têm uma obra perfeita.Dos escultores que admiro, todos eles eram insuportáveis na intimidade.Os médicos que me ensinaram, tiveram seus dias de fraqueza.

Paciência!

Errar faz parte de quem toca, compõe, opera, constrói, advoga, enfim, de quem está cumprindo a sua missão.Entenda que você é uma pessoa sensacional, mas é um ser humano.Quando temos a humildade de perceber que somos aprendizes lutando para fazer o melhor, podemos unir uma garra insuperável, com uma boa dose de compreensão de nossas fraquezas.Sempre devemos ter em mente, que amanhã vamos estar melhores porque estamos aprendendo.E, apesar de estar sempre procurando a perfeição, nunca seremos perfeitos.E para aqueles que se culpam muito, como eu, aqui vai um conselho:


"Eu sempre digo: paciência, Roberto, você fez o máximo, mas o seu máximo desta vez foi pouco.

Tenho certeza de que na próxima vez vai ser melhor.

Agora tome um sorvete, descanse bastante e se prepare que amanhã tem mais.

Você é uma pessoa honesta e digna.

Quando tiver feito uma bobagem, em vez de se culpar tome um chá, telefone para um amigo alto-astral, desabafe, olhe o sol e deixe a tensão ir embora.

Aconteça o que acontecer, tenha em mente que você procurou fazer o melhor,e que na próxima vez vai acertar.

Quando você se tortura, somente piora a sua capacidade de analisar o que está acontecendo, e joga fora a energia tão necessária para consertar a situação.

Aconteça o que acontecer, você tem de ser o seu amigo mais importante.Quem realmente se valoriza e gosta de sí,consegue perceber que nem tudo na vida é de nossa responsabilidade, mas, não foge das suas, ele(a)não desiste frente a algum tropeço e mesmo se errar tem a humildade de reconhecer e recomeçar!" ( Roberto Shinyashiki é psiquiatra, palestrante e escritor.)

De fato, quem gosta de sí encara desafios sabendo que serão um importante aprendizado e mesmo temeroso os enfrenta assumindo suas consequências.

domingo, 7 de novembro de 2010

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.


Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.


Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.


Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.


Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.


Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no

ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.


Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a

menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama

este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.


É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura

por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?


Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.


Não funciona assim.


Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.


Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!


Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

sábado, 9 de outubro de 2010


Não há nada melhor que enxergar uma paisagem verde e ensolarada por janelas generosas. O antagonismo fica por conta deste prédio em forma de caixote e com a temperatura controlada onde estou. Ouço risadas abafadas de solteiras-com-mais-de-trinta que discutem qualquer coisa em frente a um dos micros. O barulho do ar condicionado impõe a trilha sonora.

Há um rapaz no outro prédio. Certamente, o moço deveria avançar em seu trabalho, mas assiste a vídeos pelo youtube. Ociosidade criativa, dizem. Já no meu caso, que escrevo estas linhas e faço um tour pelos blogues de sempre, é vagabundagem pura e simples.

Por falar em blogue, acho que estamos passando por um delicado momento de transição. Por exemplo, percebo uma crescente simplificação do processo para a produção de um podcast. Em pouco tempo, será tão acessível publicar um texto falado como já acontece com os escritos. Mais internet para quem não gosta de ler.